TRANSIÇÃO SECA–ÁGUAS

Quando o pasto muda, o suplemento também precisa mudar.

Felipe Walter - Coordenador Técnico

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A chegada das primeiras chuvas costuma ser vista como o fim da seca. Para o gado, porém, essa mudança não acontece de um dia para o outro.

Com a chuva, o pasto começa a produzir folhas novas, muda sua composição nutricional e aumenta gradualmente a oferta de nutrientes para o animal. Ao mesmo tempo, a exigência do rebanho continua evoluindo.

Por isso, a transição seca–águas não deve ser tratada apenas como uma mudança de estação. É um período de mudança na relação entre pasto, animal e suplemento.

O principal desafio do pecuarista é identificar quando o pasto realmente mudou o suficiente para justificar uma mudança na estratégia de suplementação.

Figura 1 – Representação visual da mudança gradual da pastagem entre seca, primeiras chuvas e águas. Fonte: elaboração própria.

Tabela 1 – Pontos que devem ser avaliados ao comparar suplementos durante a transição. Fonte: elaboração técnica a partir dos estudos citados.


O PRIMEIRO PONTO DE ATENÇÃO: CHOVEU, MAS O PASTO JÁ MUDOU?

Após as primeiras chuvas, o pasto passa por uma fase de recuperação. A quantidade de forragem disponível, a proporção de folhas verdes e a qualidade do material consumido pelos animais podem mudar rapidamente.

Isso significa que a decisão de suplementação não deve ser baseada apenas na ocorrência de chuva. O produtor precisa observar a condição real da pastagem e a resposta do lote.

  • Quantidade e disponibilidade de forragem;

  • Presença e proporção de folhas verdes;

  • Proporção de folha, colmo e material seco;

  • Capacidade de seleção dos animais;

  • Consumo do suplemento e regularidade no cocho;

  • Peso, ganho médio diário e escore corporal;

  • Categoria animal e objetivo de produção.

Os estudos de Pesqueira-Silva et al. (2015), realizados em capim Marandu durante a transição seca–águas, mostram que diferentes estratégias de suplementação podem alterar o consumo de nutrientes e a digestibilidade, mesmo sem alterar significativamente o consumo de matéria seca de forragem. Isso reforça a importância de olhar além da quantidade de pasto disponível.

O QUE MUDA DENTRO DO RÚMEN?

Durante a seca, principalmente em pastagens maduras e de menor qualidade, a disponibilidade de proteína degradável pode limitar a atividade dos microrganismos do rúmen. Nesse cenário, fontes de nitrogênio não proteico, como a ureia, podem contribuir para o fornecimento de nitrogênio aos microrganismos.

Com a chegada das chuvas, o surgimento de folhas novas tende a modificar a oferta de proteína e de nutrientes mais digestíveis. Isso não significa que a proteína deixa de ser importante. Significa que a fonte, a quantidade e o sincronismo entre proteína e energia precisam ser reavaliados.

Portanto, não é tecnicamente correto transformar a transição em uma regra simples de 'tirar a ureia'. A pergunta mais adequada é: qual fonte de nitrogênio e qual quantidade fazem sentido para o pasto, o consumo esperado e o objetivo do animal?


Nível de fornecimento também importa

MAIS PROTEÍNA NÃO SIGNIFICA NECESSARIAMENTEMAIS UREIA

Um dos cuidados mais importantes é não confundir teor de proteína bruta com necessidade de nitrogênio não proteico. A proteína do suplemento pode vir de diferentes fontes e apresentar diferentes características de degradabilidade.

Em estudo realizado especificamente na transição seca–águas, Acedo et al. (2011), da Universidade Federal de Viçosa, compararam suplementos isoproteicos com 38% de PB, incluindo milho + ureia, milho + farelo de soja e farelo de algodão, fornecidos a aproximadamente 0,17% do peso vivo. O tratamento com milho + ureia apresentou maior consumo de fibra e maior digestibilidade aparente total da matéria seca em relação à mistura mineral.

A interpretação prática é importante: a ureia não é automaticamente inferior à proteína verdadeira durante a transição. Sua resposta depende do contexto nutricional, especialmente da disponibilidade de energia e do que o animal já consegue obter do pasto.



Figura 2 – Esquema conceitual para tomada de decisão na transição. Fonte: elaboração própria; não representa uma curva experimental.


E O SUPLEMENTO: O QUE DEVE MUDAR?

A resposta não é simplesmente diminuir a ureia. O correto é adequar o perfil do suplemento ao novo cenário nutricional do pasto e ao objetivo do animal.

Na prática, a estratégia pode caminhar por três caminhos.

  • Manter uma estratégia predominantemente proteica: Pode ser interessante quando o pasto ainda está em recuperação, existe pouca folha disponível ou a qualidade da forragem ainda não é suficiente para atender à demanda de proteína degradável do rúmen. Nesse momento, a prioridade continua sendo melhorar o aproveitamento da forragem.

  • Migrar para uma estratégia proteico-energética: À medida que o pasto apresenta maior quantidade de folhas novas e maior qualidade nutricional, pode fazer mais sentido aumentar a participação de energia no suplemento. O objetivo passa a ser aproveitar melhor o potencial do pasto e aumentar o ganho de peso.

  • Aumentar a intensidade da suplementação: Quando existe boa disponibilidade de forragem e o objetivo é acelerar o ganho de peso, a suplementação pode avançar para uma estratégia com maior fornecimento de nutrientes. Porém, aumentar o fornecimento não garante automaticamente maior retorno econômico: o nível deve ser compatível com o potencial do pasto, a categoria, o ganho desejado e o custo da arroba produzida.


O QUE OS ESTUDOS MOSTRAM?

Os resultados obtidos em condições de transição seca–águas ajudam a mostrar que não existe uma única suplementação ideal para todos os cenários. Abaixo, os resultados são apresentados como evidências experimentais específicas, e não como recomendações universais.

  • Moraes et al. (2006), em trabalho conduzido com participação da Universidade Federal de Viçosa e da Universidade Federal de Mato Grosso, avaliaram suplementos com 8, 16 e 24% de PB, fornecidos a 1,0 kg/dia, para novilhos mestiços em Panicum maximum cv. Mombaça durante a transição seca–águas. O ganho médio diário foi de 0,992; 1,142 e 1,261 kg/dia, respectivamente. O ganho aumentou linearmente com o nível de proteína nas condições daquele experimento.

O que isso significa para o produtor?

Não significa que todo suplemento deva ter 24% de PB. Significa que, naquele cenário, aumentar o aporte proteico melhorou o desempenho. A fórmula deve ser definida de acordo com o pasto, a categoria, o consumo e o objetivo de ganho.

Fonte de proteína: ureia também pode funcionar

Tipo de suplemento e resposta animal

Acedo et al. (2011), em estudo da Universidade Federal de Viçosa, mostraram que o suplemento com milho + ureia, com 38% de PB e fornecimento próximo de 0,17% do PV, apresentou maior consumo de FDN e maior digestibilidade aparente total da matéria seca em relação à mistura mineral. Os resultados reforçam que a ureia pode ser uma ferramenta eficiente quando inserida em uma formulação adequada.

Na prática, a pergunta não deve ser 'ureia ou proteína verdadeira?'. A pergunta deve ser 'qual fonte e qual combinação de nutrientes melhor atende o sistema neste momento?'

Pesqueira-Silva et al. (2015), em experimento realizado pela Universidade Federal de Mato Grosso com participação da Universidade Estadual Paulista, compararam suplemento mineral, energético, proteico e múltiplo em novilhas Nelore em capim Marandu durante a transição seca–águas. Os GMD foram de 0,481; 0,569; 0,683 e 0,664 kg/animal/dia, respectivamente.

A leitura prática é que o suplemento proteico e o múltiplo produziram maior GMD que o mineral naquele experimento. Mas o maior ganho não deve ser analisado isoladamente: o custo do suplemento e o retorno adicional precisam entrar na decisão.

Tabela 1 – Pontos que devem ser avaliados ao comparar suplementos durante a transição. Fonte: elaboração técnica a partir dos estudos citados.

O resultado mostra que maior oferta de nutrientes pode elevar o ganho em determinada condição experimental. Para o produtor, porém, a decisão deve considerar o custo adicional e a margem gerada pelo ganho extra.

NÃO COMPARE SOMENTE O GMD

O PRODUTOR DEVE ACOMPANHAR 4 COISAS

  • PASTO: Não avalie somente a quantidade de massa. Observe principalmente folha verde, qualidade da folha, disponibilidade de forragem e capacidade de seleção do animal.

  • ANIMAL: Acompanhe peso médio do lote, ganho médio diário, escore corporal, uniformidade e categoria/estágio de produção.

  • COCHO: O consumo do suplemento precisa ser acompanhado. Variações podem indicar mudança na qualidade do pasto, na exigência, na adaptação, na atratividade ou na adequação do produto.

  • RESULTADO ECONÔMICO: O melhor suplemento não é necessariamente o que produz o maior ganho. É o que proporciona maior retorno econômico dentro do sistema.

QUANDO PENSAR EM TROCAR DE SUPLEMENTO?

E OS ADITIVOS?

REFERÊNCIAS

ACEDO, T. S.; PAULINO, M. F.; DETMANN, E.; VALADARES FILHO, S. C.; SALES, M. F. L.; PORTO, M. O. Fontes proteicas em suplementos para novilhos no período de transição seca-águas: características nutricionais. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, Belo Horizonte, v. 63, n. 4, p. 895-904, 2011. DOI: 10.1590/S0102-09352011000400015. Pesquisa vinculada à Universidade Federal de Viçosa (UFV).

DETMANN, E.; PAULINO, M. F.; CECON, P. R.; VALADARES FILHO, S. C.; ZERVOUDAKIS, J. T.; CABRAL, L. S.; LEÃO, M. I.; LANA, R. P.; PONCIANO, N. J. Níveis de proteína em suplementos para terminação de bovinos em pastejo durante o período de transição seca/águas: consumo voluntário e trânsito de partículas. Revista Brasileira de Zootecnia, v. 34, n. 4, p. 1371-1379, 2005. DOI: 10.1590/S1516-35982005000400035. Participação institucional de UFV, UFMT e UENF.

DETMANN, E. et al. Níveis de proteína em suplementos para terminação de bovinos em pastejo durante o período de transição seca/águas: digestibilidade aparente e parâmetros do metabolismo ruminal e dos compostos nitrogenados. Revista Brasileira de Zootecnia, v. 34, n. 4, p. 1380-1391, 2005. DOI: 10.1590/S1516-35982005000400036. Participação institucional de UFV, UFMT e UENF.

MORAES, E. H. B. K.; PAULINO, M. F.; ZERVOUDAKIS, J. T.; DETMANN, E.; VALADARES FILHO, S. C.; VALADARES, R. F. D.; MORAES, K. A. K. de. Níveis de proteína em suplementos para novilhos mestiços em pastejo durante o período de transição seca/águas. Revista Brasileira de Zootecnia, v. 35, n. 5, p. 2135-2143, 2006. DOI: 10.1590/S1516-35982006000700034. Participação institucional de UFV e UFMT.

PESQUEIRA-SILVA, L. C. R.; ZERVOUDAKIS, J. T.; CABRAL, L. S.; HATAMOTO-ZERVOUDAKIS, L. K.; SILVA-MARQUES, R. P.; KOSCHECK, J. F. W.; OLIVEIRA, A. A. de. Desempenho produtivo e econômico de novilhas Nelore suplementadas no período de transição seca-águas. Semina: Ciências Agrárias, v. 36, n. 3, supl. 1, p. 2235-2246, 2015. DOI: 10.5433/1679-0359.2015v36n3Supl1p2235. Pesquisa na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), com participação da UNESP.

PESQUEIRA-SILVA, L. C. R. et al. Parâmetros nutricionais de novilhas Nelore em pastejo de capim Marandu recebendo suplemento energético, proteico e múltiplo no período de transição seca-águas. Semina: Ciências Agrárias, v. 36, n. 5, p. 3293-3302, 2015. DOI: 10.5433/1679-0359.2015v36n5p3293. Pesquisa vinculada à Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), com participação da UNESP.

SILVA, D. A. Suplementação de bovinos nos períodos transição seca-águas e águas. 2024. 54 p. Dissertação (Mestrado em Zootecnia) – Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, Diamantina, 2024. Sem DOI. Repositório institucional: https://repositorio.ufvjm.edu.br/items/78f446dd-c8e5-4dd6-af57-0b7655a6840a/full.

A TRANSIÇÃO NÃO ACONTECE NO CALENDÁRIO. ACONTECE NO PASTO.

Na transição seca-águas, além de ajustar proteína e energia, os aditivos podem ajudar a melhorar a eficiência de utilização dos nutrientes.

A flavomicina, por exemplo, atua sobre a população de bactérias do rúmen, modificando o ambiente de fermentação. Na prática, pode contribuir para melhor aproveitamento da dieta, maior eficiência da fermentação e melhor utilização dos nutrientes disponíveis, especialmente quando o pasto já apresenta boa qualidade e elevada disponibilidade de proteína.

Por isso, seu uso pode ser interessante em situações nas quais o objetivo não é simplesmente fornecer mais proteína, mas melhorar a eficiência com que o animal utiliza os nutrientes que já estão disponíveis.

O ponto principal é: conforme o pasto melhora, a estratégia de suplementação também pode mudar. Nesse momento, além de proteína e energia, vale avaliar se a utilização de um aditivo pode contribuir para aumentar a eficiência da dieta.

Felipe Walter - Coordenador Técnico Macal

"QUANDO O PASTO MUDA, O SUPLEMENTO TAMBÉM PRECISA MUDAR.

Essa é a principal mensagem para o produtor. A chegada das chuvas cria uma nova oportunidade nutricional, mas essa oportunidade precisa ser acompanhada.

O pasto muda. A dieta muda. A exigência do animal muda. E o suplemento precisa acompanhar essa mudança.

Não existe uma data universal para abandonar o suplemento utilizado na seca ou migrar para um produto de maior aporte energético. Existe o momento em que o pasto, o animal e o objetivo de produção indicam que a estratégia precisa mudar.

É nesse processo que o acompanhamento técnico faz diferença: avaliar o cenário da propriedade, interpretar as respostas do lote e definir, junto com o pecuarista, quando manter, reduzir, aumentar ou trocar o perfil do suplemento.

Na prática, a suplementação eficiente não é simplesmente fornecer mais nutrientes. É fornecer o nutriente certo, na quantidade certa e no momento em queo animal realmente precisa.

Apoio técnico: a equipe técnica da Macal pode apoiar o produtor na avaliação do pasto, consumo do suplemento e desempenho do lote, ajudando a identificar o momento mais adequado para manter, ajustar ou trocar a estratégia de suplementação.

Na dissertação de mestrado de Douglas Aparecido Silva (2024), da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), foram comparados, durante a transição seca–águas, um suplemento proteico a 0,1% do PV e um suplemento proteico-energético a 0,3% do PV. Os GMD foram de 0,375 e 0,485 kg/dia, respectivamente

Figura 2 – Esquema conceitual para tomada de decisão na transição. Fonte: elaboração própria; não representa uma curva experimental.


Figura 3 – GMD observado por Moraes et al. (2006) com diferentes níveis de PB no suplemento. Fonte: dados do estudo; elaboração gráfica própria.

Figura 4 – GMD observado por Pesqueira-Silva et al. (2015). Fonte: dados do estudo; elaboração gráfica própria.

Figura 5 – GMD observado por Silva (2024) na fase de transição seca–águas. Fonte: dissertação; elaboração gráfica própria.

Tabela 2 – Indicadores para avaliação econômica e técnica da suplementação.

Figura 6 – Fluxo simplificado para revisão da estratégia de suplementação. Fonte: elaboração própria.

Tabela 3 – Matriz prática para apoiar a decisão. Fonte: elaboração técnica; não substitui avaliação específica da propriedade.

Figura 3 – GMD observado por Moraes et al. (2006) com diferentes níveis de PB no suplemento. Fonte: dados do estudo; elaboração gráfica própria

Figura 4 – GMD observado por Pesqueira-Silva et al. (2015). Fonte: dados do estudo; elaboração gráfica própria.

Figura 5 – GMD observado por Silva (2024) na fase de transição seca–águas. Fonte: dissertação; elaboração gráfica própria.

Tabela 2 – Indicadores para avaliação econômica e técnica da suplementação.

Figura 6 – Fluxo simplificado para revisão da estratégia de suplementação. Fonte: elaboração própria.


Tabela 3 – Matriz prática para apoiar a decisão. Fonte: elaboração técnica; não substitui avaliação específica da propriedade.

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